Arthur Jordão, Diretor Executivo da ESNA em entrevista ao jornal Capital Bulgária

Arthur Jordão, Diretor Executivo da ESNA, numa entrevista ao jornal búlgaro Capital, falou sobre a aliança e as suas prioridades.
A entrevista abordou os resultados dos últimos quatro anos e o ecossistema europeu.
Desde o seu lançamento em 2021, a ESNA reuniu 22 Estados-Membros ativos com o objetivo comum de promover padrões regulatórios, melhorar a coordenação de políticas públicas e reforçar a tomada de decisões baseada em dados no ecossistema europeu de startups.
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Leia a entrevista na íntegra aqui
Entrevista ao Jornal Capital Bulgária- Tradução em Português
Arthur Jordão, ESNA: “Se pudesse escolher uma única prioridade política para toda a Europa, seria o 28.º regime”
O Diretor Executivo da Europe Startup Nations Alliance fala à Capital sobre dados, políticas e o caminho para um ecossistema europeu de startups competitivo.
A Europe Startup Nations Alliance (ESNA) foi criada em 2021 como resultado direto da declaração Startup Nations Standard da União Europeia, assinada por 26 Estados-Membros e pela Islândia. A sua missão é acelerar o crescimento do empreendedorismo europeu, melhorando os enquadramentos políticos nacionais e fornecendo ferramentas baseadas em evidência para decisores políticos. Na Bulgária, a ESNA é representada pela BESCO, a Associação Búlgara de Empreendedorismo e Startups, selecionada pelo Ministério da Economia como ponto focal do país na aliança.
Porque é que a ESNA existe e qual é o seu propósito?
Para explicar isso, preciso de dar algum contexto sobre como a organização foi criada. Há quase cinco anos, os membros da ESNA reconheceram que a Europa está atrasada em relação a outros blocos do mundo em termos de competitividade e maturidade do ecossistema de startups. E, por esse motivo, também perceberam que não existia necessariamente uma entidade dedicada ao nível da UE que abordasse este tema com foco total e que apoiasse os países a dedicar-se a esta matéria específica.
Assim, acordaram, numa declaração ministerial, que era necessário elevar o nível de forma coletiva. Para isso, comprometeram-se a implementar oito práticas políticas favoráveis às startups, os chamados Startup Nations Standards of Excellence. Essencialmente, estamos a falar de: criação de empresas de forma rápida e por menos de 100 euros; atração e retenção de talento; regimes de stock options; inovação na contratação pública; inovação na regulação; medidas de acesso a financiamento; inclusão social e diversidade; e, por fim, uma abordagem digital-first na interação destas empresas com entidades públicas. Estas foram as oito dimensões que acordaram implementar para que cada país pudesse tornar-se uma nação de startups e para que a Europa, no seu conjunto, ficasse melhor posicionada.
O que passou do plano aspiracional para o operacional foi a criação da ESNA. A ESNA é uma organização europeia com um mandato claro de apoiar os Estados-Membros a melhorar as suas políticas e medidas para o ecossistema de startups.
Um dos pilares é a criação de ferramentas. A monitorização que fazemos, o relatório Startup Nations Standards, é publicado anualmente e avalia a evolução dos países nestas dimensões. Outro pilar são as nossas ferramentas de dados. Quero sublinhar este aspeto porque incorporámos um princípio muito importante: o que não se mede, não se pode gerir.
E essa era a realidade da Europa. Não sabíamos quantas startups, scale-ups e tudo o que deriva da análise destes dois conceitos existiam no continente. Com a ESNA e as ferramentas de dados que disponibilizamos, estamos a mudar isso.
A Europa e a UE são frequentemente criticadas pela burocracia e pelos processos que dificultam a capacidade das empresas inovadoras de escalar como no Silicon Valley. Que mecanismos específicos criou a ESNA para resolver isso?
Não há uma resposta direta, no sentido em que não se pode dizer que, por ações específicas da ESNA, a Europa se tornou menos burocrática, é uma realidade muito mais complexa e multifacetada. Mas, tentando responder, tudo se resume à vontade política, às prioridades políticas e à estratégia como um todo. Está cada vez mais evidente, ao mais alto nível de decisão política, que estamos num momento urgente. Precisamos de agir em matéria de competitividade. Precisamos de agir em matéria de soberania em vários domínios, incluindo defesa, tecnologia e energia.
E a ESNA atua num subsector da economia que claramente funciona como motor de inovação. O que fazemos não é advocacy, mas sim desenvolver ferramentas concretas através de uma plataforma independente e, como organização criada pelos Estados-Membros, contribuímos com melhor conhecimento para que haja melhor navegação e formulação de políticas.
Dito isto, seria desonesto negar o que está implícito na sua pergunta. A limitação da inovação, o peso da regulação e legislação, a fragmentação, não apenas o facto de ainda não termos um verdadeiro mercado único e uma forma fluida de operar em toda a Europa, tudo isso é real. Mas os esforços que temos vindo a observar indicam que o caminho é no sentido de ultrapassar esses obstáculos. Há um ponto importante: a alternativa, ou pelo menos o caminho para atingir o que queremos para a Europa, não é uma desregulação total. Existem princípios e valores na Europa que valorizamos demasiado para simplesmente imitar o que acontece noutros blocos.
Na Bulgária, a ESNA é representada pela BESCO. Como funciona essa representação na prática?
Os governos de cada país indicam uma organização para os representar na ESNA. Não existe um objetivo ou KPI de ter o maior número possível de membros, há apenas um por país, escolhido pelo governo. Na altura, o Ministério da Economia indicou a BESCO.
A BESCO é uma organização privada sem fins lucrativos, o que não é o caso da maioria dos nossos membros. Houve alguma liberdade nessa escolha. Temos outros países numa situação semelhante, como Portugal ou a Polónia. Mas muitos outros são representados por agências públicas de inovação, braços de capital de risco do Estado ou associações empresariais.
Em termos práticos, a BESCO funciona como ponto focal. Muito do trabalho que fazemos para compreender melhor e recolher dados sobre os vários ecossistemas depende deles. São responsáveis por dinamizar este trabalho na Bulgária. Naturalmente, não o fazem sozinhos, colaboram com várias entidades públicas para recolher dados e também para facilitar relações ou iniciativas que possamos ter no país.
Para referência futura, e penso que é importante mencionar, estamos a evoluir para uma forma jurídica europeia recentemente criada pela Comissão Europeia, chamada European Digital Infrastructure Consortium (EDIC). Quando fizermos essa transição, o modelo de governação mudará ligeiramente. A partir desse momento, serão os próprios governos, no caso da Bulgária, o governo búlgaro, os membros da ESNA. Esperamos que isso aconteça até ao final deste ano ou início do próximo.
Porque é que esta nova forma de governação é melhor?
É melhor por várias razões. Primeiro, confere-nos uma natureza jurídica plenamente europeia, o que facilita a atuação da organização. Segundo, passaremos a ter a Comissão Europeia na governação. Já fomos financiados pela Comissão algumas vezes, mas tê-los dentro da estrutura reforça claramente a nossa posição. Também estaremos mais alinhados com os esforços estratégicos da UE, particularmente em torno da Década Digital, já que o enquadramento EDIC está ligado a esses objetivos. O acesso a financiamento deverá igualmente tornar-se mais fácil.
Referiu a necessidade de recuperar terreno face a outros blocos. Quais são as prioridades mais críticas da ESNA para os próximos dois a três anos?
O foco e a missão mais ampla não vão mudar nos próximos anos. O que acredito que vai mudar é a clareza do panorama. Deixe-me colocar assim: a conversa sobre startups na Europa tem sido feita sobretudo com base em perceções. E não acreditamos que a seriedade, a importância e o peso deste ecossistema para a sociedade devam assentar apenas em perceções. O oposto disso é precisamente o que referi, é evidência, são dados. É termos a mesma linguagem e os mesmos indicadores para podermos falar das mesmas coisas.
Sabemos que, ao longo da última década, muitas estratégias, planos e informação foram produzidos com dados não comparáveis e com pouca transparência metodológica. Isso impede conclusões sólidas, ou leva a conclusões moldadas para favorecer determinadas narrativas.
O que trazemos é clareza para o debate, para a tomada de decisão e para o caminho a seguir. Quando falo em convergir e recuperar terreno, não há como evitar comparar o investimento entre regiões. Não há como evitar medir o peso deste ecossistema na economia. Nem a sua contribuição para a inovação em áreas críticas.
Consegue traduzir isso em números? O que precisa a Europa de alcançar para recuperar terreno?
Poderíamos passar um dia inteiro a discutir isso, mas alguns exemplos incluem comparações per capita: número de startups por habitante; investimento por habitante; peso da inovação no PIB; contribuição das receitas destas empresas para o PIB; capacidade de transformar propriedade intelectual em produtos comerciais.
Podemos aprofundar ainda mais: será que a Europa já é um destino para investimento em fases mais avançadas? O financiamento para scale-ups deixou de ser um problema? Como se compara o financiamento público com o privado? No lado público, não há grandes diferenças face aos EUA, embora possamos discutir eficiência. A diferença é muito mais evidente no financiamento privado.
Estes são indicadores essenciais para definir o rumo e perceber como deve evoluir a Europa.
Se pudesse implementar uma única medida política em todos os membros da ESNA, qual seria?
Essa é difícil. Não sei se devo dar a resposta que espera ou ser totalmente honesto. Mas tendo em conta que a discussão atual gira em torno da redução da burocracia, diria o 28.º regime. Poderia ser um verdadeiro game changer, servindo de base para outras medidas e desbloqueando áreas como o financiamento e a mobilidade de talento entre países. Reduzir a burocracia e permitir operar verdadeiramente como uma única entidade em toda a Europa, com tudo o que isso implica, seria a minha escolha.